A nossa moral a gente inventa, pra se distrair!

Há uma teoria que corre solta nas mãos dos ateus sobre a moral. Dizem que se você fizer algo que não atinja o próximo, ou que ele não perceba, então está tudo bem, é bom, não faz mal a ninguém, não prejudica ninguém. É, em suma, moral.

O que não deixa de ser interessante é saber como eles chegam a conclusão de que um determinado ato não afeta outra pessoa. São verdadeiros controladores da causa e do efeito.

Se você tomar um real do José Dirceu, pode alegar que não vai afetá-lo, já que o secretário tem uma conta bancária bem recheada. É possível até dizer ao amigo do trabalho que você já saiu com a Scarlett Johansson, já que o ato não a deixaria constrangida.

Claro que são exemplos toscos e simples, mas nem por isso são atos bons, corretos. Se são os mesmos que julgam as próprias ações: se esta ou aquela pessoa será atingida e por que será, então, no mínimo, advogam em causa própria.

Nada de novo sob o sol, pois a exigência da existência de Deus sempre acaba aparecendo na moral, dando eco ao grande Dostoiévski: se Deus não existe, então tudo é permitido; não se pode justificar o injustificável. Não é possível encontrar um subterfúgio para que um ato seja moral a não ser que este seja a fonte mesma da própria moral. Dito de outra forma, não é possível recorrer a uma causa volátil, mutável, para tonar moral um ato imoral em si mesmo. Se fosse possível, não poderíamos dizer que o estupro, ou o assassinato, seriam atos bons ou maus, pois seria necessário conferir com o espírito ou atitude da época, se, naquele momento e lugar, estes atos seriam ou não moralmente corretos.

Sim, estamos no campo movediço do relativismo, o que pode tornar esta teoria ateísta da moralidade ainda mais frágil e sem sentido. Pois, o relativista, ao entrar na casa do vizinho, alega que aquela casa, na sua humilde visão, é a sua própria casa e que, finalmente, a vizinha, também é a sua mulher.

Quando se engana o amigo, a esposa, o patrão, desta forma subversiva, apelando para o velho “o que os olhos não vêem, o coração não sente”, o que se está fazendo não é tornar um ato bom ou mau, isso ele já é na fonte e na intenção — como diria Santo Tomás — , mas simplesmente escondendo de si mesmo a imoralidade, como a poeira embaixo do tapete.

Assim se esvai qualquer senso de moralidade que se tinha, aos poucos o sujeito vai criando um outro eu que leva uma outra vida, inaugurando um universo paralelo onde o deus é ele mesmo, criador das regras morais mais adequadas às suas intenções mais obscuras.

Um atentado contra o homem

Entendo que algumas pessoas tenham dificuldade em compreender que a religião está inscrita no homem. Episódios como os atentados de Paris sempre suscitam àqueles que desejam encontrar finalmente a superação da religião, livrando o homem de crenças obsoletas e terríveis que podem tornar-se um pesadelo fundamentalista. Não será assim. Jamais.

A busca do santo graal racionalista carece de bases históricas e racionais. Ora, foi exatamente por racionalizar demasiadamente a raça, a evolução, o estado, a ciência, que estes se converteram em novas religiões. Obviamente, religiões vazias por que sem Deus, sem bases firmes e imutáveis. Fizeram tudo isso em nome da razão, em nome da exatidão experimental;  e, ao buscar a reinvenção da natureza humana, reinventaram a religião e sem o perceber. Como diria Chesterton, o homem, na sua sede de saber, sempre caminha para o dogma.

Pode-se fazer a objeção de que, em verdade, apesar do que diziam, eles não estavam sendo racionais. Pensemos: no futuro, se poderá dizer o mesmo daqueles que hoje, como os de ontem, disseram que a religião, a sede de sentido e de absoluto do homem, deveria ser neutralizada pela ciência, pelo super-homem ou por qualquer simulacro de solução redentora. E essa esperança é, enfim, uma fé tal qual aquela do crente em Deus.

Ao mover-se de consenso em consenso, de convenção em convenção, nosso racionalista caminha numa neblina que só lhe permite enxergar um pouco mais adiante. Ele nunca sabe de onde vem e pra onde vai, e não percebe que quando é assim, qualquer direção é igualmente válida.

Nos primórdios, os homens enterravam seus mortos com adornos que pudessem utilizar em outra vida; sempre se suspeitou que o Hades não fosse um bairro qualquer do subúrbio. O problema não é questionar o Hades, o problema é não perceber que: foi exatamente se questionando que homem chegou até ele.

Dividir-nos ao meio, como se não tivéssemos a pergunta de Deus inscrita em nossos corações, nos tornará ainda mais suscetíveis, prontos para travar uma batalha gritando, ao invés de “Deus!”, qualquer nome: do nosso ditador favorito, da nossa ideologia favorita, ou até o nosso próprio nome, na esperança de que nós, seres imperfeitos, sejamos a medida de todas as coisas.

Não, o homem não pode escapar de si mesmo. É seu dever refletir sobre a religião.

© 2016 Guilherme P. Lima

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